Carta à minha mãe
Minha querida,
tanto tempo vivemos juntas, tanto nos falamos, mas quanta coisa ficou a ser dita,
quantas perguntas que não foram respondidas e quantas pendências ficaram a
serem discutidas
Fico
pensando em como adquirimos uma cumplicidade nos últimos anos, nos quais
falávamos e nos entendíamos com um olhar. Sabíamos quando uma ou outra estava
desconfortável, ou quando estávamos tristes ou angustiadas. Queríamos salvar uma
à outra de situações que estavam nos trazendo desconforto e às vezes metíamos
os pés pelas mãos e chateávamos alguém sem querer. Aprendemos o que podíamos
falar ou o que devíamos ignorar. Conheci segredos de família que não tinham
sidos ditos até então. Conheci histórias nem sempre motivo de orgulho para quem
foi protagonista. Fiquei sabendo fatos, que transformaram pessoas endeusadas em
humanos com grandes falhas.
Tenho que
te pedir desculpas por não ter percebido que sua jornada estava chegando ao
fim. Deveria ter entendido por que seu apetite se tornou frugal e não ter perdido
a paciência quando na maioria das vezes forçava, sem sucesso que se
alimentasse. Deveria entender que seu sono constante já era o final de sua
vivência entre nós, assim como sua falta de interesse em assuntos antes tão bem
vindos para uma conversa inteligente. De fato me recusei a perceber que estava
próxima a sua viagem para encontrar os seus irmãos, o meu pai, seus pais e
tantos outros que fizeram parte de sua vida.
Não
consigo esquecer sua última semana e precisamente seus dois últimos dias. Por
causa do que foi chamado depressão, e chegando o médico à conclusão, de que o
remédio não estava adiantando, aumentou sua dosagem. Aí uma pessoa que apesar
de debilitada estava lúcida, respondendo às perguntas, de repente começou a
alucinar e eu tive uma sensação de impotência e mesmo com a outra mexida no
remédio, não deu tempo de tentar que você voltasse ao normal. Mas você
pressentiu ou foi avisada. Naquela noite ao ir ao banheiro, estando então
serena, falou: ”vou morrer hoje”.
No dia seguinte
pela manhã você se foi docemente.
Que dor
profunda, mas não tive tempo de chorar e nem me despedir. Tive que sair para
resolver as situações práticas. E nesse momento não era a sua filha que o
estava fazendo, mas uma terceira pessoa que consegui deslocar de mim mesma.
Sensação péssima. Era como se não fosse você querida mãe, que estava dependendo
de todas aquelas decisões, mas uma pessoa estranha. Nossa capacidade de defesa
é enorme e complexa.
Pedi
desculpas antes, mas agora peço perdão por uma falha que me acompanhará o resto
de vida que tenho. Você, mulher de grande fé e enquanto pôde rezou o terço
todos os dias, foi sepultada sem ele. Não percebi e só depois me dei conta que
falhei horrivelmente nesse sentido. Espero seu perdão e sua compreensão. Muita
coisa para gerenciar e esse fato importante ficou em segundo plano. Se alguém
percebeu não me alertou e a senhora se foi sem seu companheiro. Uma vez me
disse que mãe sempre perdoa e me apego a esse dito para tentar não me
mortificar com esse fato.
Foi minha
amiga nesses anos que ficamos apenas nós duas, fomos cúmplices, fomos
complemento, fomos continuação.
Fico pensando
como somos parecidas. Não fisicamente. Você era bonita. Mas para mim ficou a
preocupação constante com tudo e com toda a insônia, o sofrimento por
antecipação, a semelhança do pé e da mão, a vontade de agradar quem nos visita,
a vontade de saber cada vez mais, a curiosidade para aprender, a paixão pela
leitura. Mas para por aí. Porque você tinha uma inteligência superior. Com
certeza. Nunca poderia saber fazer tudo para o qual você tinha habilidade. Acho
que posso afirmar que jogava em todas as posições. Era ótima cozinheira, sabia
pintar, costurar, fazer inúmeros trabalhos manuais, entre tantas outras coisas.
Múltiplas habilidades. Além do mais tinha uma cultura excepcional, sem viajar,
mas através de leituras. Quando não sabíamos a origem de algum nome ou qualquer
outra coisa, podíamos perguntá-la, pois saberia a resposta. Mas sabia antes de
tudo e mais do que tudo amar e nos deixar esse amor que nos dedicou com prazer
e com intensidade.
Beijos
querida! Seja feliz e nos proteja sempre!
Sua filha
que sempre cultivará sua lembrança!