FIGURAS FOLCLÓRICAS
Em Itaperuna existiam
algumas figuras folclóricas e salvo poucas exceções eu tinha medo de todas.
Algumas eram reais e uma foi criada pelo meu imaginário.
As reais eram o Lampião, um negro que me
parecia bem idoso, e que corria atrás das crianças com um porrete que fazia de
bengala, o Enguiça que ficava no ponto de ônibus da papelaria Ita Gráfica e que
ameaçava os alunos pequenos que esperavam o ônibus ali. Tinha também o Amigo,
de quem eu não tinha medo, e que gostava de conversar e falava que ia casar
depois da colheita. A Porca Ruça era uma mulher muito branca, sarará e
sujíssima. A Jacaré que não era muito assustadora, mas corria atrás de nós
sempre que a chamávamos pelo apelido. A mais famosa sempre foi a Maria, que não
punha medo em ninguém, mas que várias gerações conheceram. Maria foi dessas
pessoas que para no tempo em matéria de idade. Sempre foi do jeito que conheci.
Nunca mudou.
Mas de todos, o que mais me apavorava, era a
personagem que eu tinha criado na minha imaginação. Era a Cabeluda. Eu a
imaginava um monstro horroroso, cheia de cabelos por todo o corpo e rosto.
A
história começou com um comentário de meu avô. Eu estava chorando,
provavelmente fazendo uma bela manha, e olhava para a casa da vizinha, que
tinha um buraco na parede, coberto por uma tábua, um pouco acima do chão. Meu
avô falou: “-Mas que cabeluda!” (a manha). Parei de chorar no mesmo instante
imaginando que naquele buraco houvesse esse monstro que imaginei no momento do
comentário. Foi o bastante! Exploraram meu medo. Meu avô arranjou uma casa para
o monstro! Era um alicerce de uma casa começada que ficava na subida do caminho
que vinha do centro da cidade para nossa casa. Algumas pessoas às vezes ficavam
morando ali em baixo, pois era um alicerce bem alto. Alguns anos depois abrigou
até uma oficina de bicicleta. Eu não passava ali tranquila! Nunca via o
monstro, mas com certeza ele morava ali. Fiquei muitos anos com medo da
cabeluda! Não sei quando entendi que ela não existia de fato, mas sempre desconfiei
daquele lugar escondido que durante muitos anos existiu naquela subidinha!

2 comentários:
Adorei. Desses vc me lembrou do Enguiça e claro, da Maria Caraca. bjs
A Maria Caraca era linda, simpática! Eu me lembro, com carinho, do Israel - tinha um retardo mental leve para médio,
Olhis enirmes, mto negro, o mais gordo que conheci, andava arrastando os pés , lavava carros na rua e pi r volta de 1980 ficava mais no estacionamento da fábrica de Leite Glória, onde o via bem de perto, em papos pela janela da sala onde eu trabalhava, separados por uma grade. Respeitador, religioso, trabalhador, tinhas sonhos e realizou alguns casando-se e tendo filhos. Morreu jovem. Foi pro céu.
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