TIA MARIA
Maria Betão tornou-se
uma lenda em Itaperuna. Educadora, batalhadora, dona de uma escola de sucesso e
que é respeitada até hoje. Por que Maria Betão? Na família Boechat tinham
muitas Marias então para denominá-las usavam-se os nomes dos pais, então era
Maria do Betão, Maria do Joque etc. Ficou o nome e muitas pessoas até hoje
acham que é seu nome próprio. Corria um boato, e eu acho que muita gente ainda
pensa assim, que ela havia ficado paraplégica, pois tinha feito regime para
emagrecer. Mas não. Ela foi acometida por um vírus na sua coluna e apesar de
tratar, não teve jeito. Era uma mulher vaidosa, bonita. E antes de ficar
doente, morava em Niterói, onde estudou, se vestia muito bem, só usava salto
alto e se divertia muito! Depois que surgiu sua deficiência, houve necessidade
de algumas adaptações assim que voltou a morar em Itaperuna. Precisava de uma
pessoa boa, honesta e dedicada que a ajudasse, então caiu do céu a Regina,
guardiã de todas as horas. Mais, muito mais! Foi sua amiga, sua filha, sua
protetora. Foi fiel até o fim. Foi quem acolheu suas alegrias, tristezas,
decepções, raivas, e todos os tipos de sentimentos. Tia Maria não seria tia
Maria sem a Regina. Muitos anos depois chegou a Claudiane, sobrinha da Regina e
que manteve junto com a tia a dedicação à Maria Betão.
Essa era a mulher
chamada Maria. Mas essa não é a minha tia Maria. A minha tia Maria fez parte da
minha vida desde que nasci. Era minha tia avó e minha madrinha. Quando, bem
pequena, estava aprendendo a rezar a Ave–Maria, a minha mãe mandava que eu
repetisse: “Ave Maria, cheia de graças...”, mas eu só repetia: “Tia Maria...”
Passei por vários
sentimentos em relação a ela. Primeiramente era uma tia muito engraçada, que
toda vez que ia à sua casa ela me falava: “Tudo bem, muito bem? Veio a pé ou
veio de trem?” Achava o máximo, mas detestava quando me deixava marca de batom
vermelho nas minhas bochechas. Depois que cresci um pouco e fui estudar no
colégio “Externato Duque de Caxias” os meus sentimentos se confundiam entre
respeito e medo. Ela era brava e eu me encontrava com ela fora da escola, então
eu achava que aquela disciplina do colégio deveria se estender para os momentos
de lazer. Quando fui para o C.E. 10 de Maio, já com 10 anos, novamente mudou
meu jeito de me relacionar. Aí ficou só o respeito, o medo se foi. Conversávamos,
mas eu era criança, então meu relacionamento não era estreito. Chegou a época
de sair de Itaperuna para estudar fora. Fui para Petrópolis e quando entrei
para a faculdade de Psicologia nosso relacionamento se estreitou um pouco mais
e conversávamos bastante. Voltando para a cidade 17 anos depois ficamos amigas.
Sempre passava em sua casa e era sempre muito agradável conversar com a minha
tia. Conversávamos coisas sérias, fazíamos um pouco de fofoca, brincávamos uma
com a outra. Quando fui trabalhar com a inclusão da pessoa com deficiência na
escola regular, não pude mais dividir com ela meus sucessos e meus fracassos em
relação ao tema, pois ela já tinha sofrido um AVC e não conseguia se expressar
direito e talvez não estendesse o que falávamos. Senti muita falta disso.
Queria muito ter podido conversar com ela sobre o tema e como vínhamos
desenvolvendo o trabalho. Sua escola foi a primeira, que tenho conhecimento,
que aceitou em seu quadro de alunos crianças com deficiência. Foi a primeira
escola inclusiva de Itaperuna. E isso quando nem se pensava em inclusão!
Apesar de ser rígida
em relação à escola, de dar importância enorme à disciplina, a minha tia era
uma mulher afetuosa, moderna, que aceitava certos comportamentos e atitudes dos
jovens. Era generosa. Muitos alunos estudaram sem pagar o colégio e nunca foram
cobrados por isso. Acolheu muitas pessoas em sua casa e ajudou a todas sem
distinção. Para a família era ponto de referência a quem todos prestavam deferência,
a quem todos tinham respeito. Era, por assim dizer a matriarca, a chefe da
família.
Faz muita falta para
todos nós o seu apoio e a certeza que sempre estaria ali quando precisássemos,
mas com certeza nunca será esquecida por quem a conheceu e que teve o
privilégio de participar de sua vida.
Tia Maria e eu
3 comentários:
Dona Maria Betão é mais uma pessoa da sua Família que fez história em Itaperuna - dificilmente será esquecida, até pq o Colégio continua formando gerações,com o selo de qualidade que leva o nome dela! Será nome de rua, com certeza - torço para que seja uma rua com mto verde e com acesso para pessoas com dificuldade de locomoção para pessoas que como ela, querem sair, viver a vida e fazer acontecer. Abraço!!! Sol
estudei no externato nos anos de 1985 e 1986 e gostaria muito de reencontrar amigos daquela época....foi um tempo muito importante em minha vida e gostaria de relembrá-los com pessoas que fizeram parte dele, ah dona maria betão, regina, professora vera...
Boa noite Dalca
Eu estudei no externato ñ a época da Maria Betão atuante. Tive uma colega chamada Dalca, será vc?
Um abraço
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