domingo, 24 de novembro de 2013

TIA MARIA







TIA MARIA
  
  Maria Betão tornou-se uma lenda em Itaperuna. Educadora, batalhadora, dona de uma escola de sucesso e que é respeitada até hoje. Por que Maria Betão? Na família Boechat tinham muitas Marias então para denominá-las usavam-se os nomes dos pais, então era Maria do Betão, Maria do Joque etc. Ficou o nome e muitas pessoas até hoje acham que é seu nome próprio. Corria um boato, e eu acho que muita gente ainda pensa assim, que ela havia ficado paraplégica, pois tinha feito regime para emagrecer. Mas não. Ela foi acometida por um vírus na sua coluna e apesar de tratar, não teve jeito. Era uma mulher vaidosa, bonita. E antes de ficar doente, morava em Niterói, onde estudou, se vestia muito bem, só usava salto alto e se divertia muito! Depois que surgiu sua deficiência, houve necessidade de algumas adaptações assim que voltou a morar em Itaperuna. Precisava de uma pessoa boa, honesta e dedicada que a ajudasse, então caiu do céu a Regina, guardiã de todas as horas. Mais, muito mais! Foi sua amiga, sua filha, sua protetora. Foi fiel até o fim. Foi quem acolheu suas alegrias, tristezas, decepções, raivas, e todos os tipos de sentimentos. Tia Maria não seria tia Maria sem a Regina. Muitos anos depois chegou a Claudiane, sobrinha da Regina e que manteve junto com a tia a dedicação à Maria Betão.
    Essa era a mulher chamada Maria. Mas essa não é a minha tia Maria. A minha tia Maria fez parte da minha vida desde que nasci. Era minha tia avó e minha madrinha. Quando, bem pequena, estava aprendendo a rezar a Ave–Maria, a minha mãe mandava que eu repetisse: “Ave Maria, cheia de graças...”, mas eu só repetia: “Tia Maria...”
   Passei por vários sentimentos em relação a ela. Primeiramente era uma tia muito engraçada, que toda vez que ia à sua casa ela me falava: “Tudo bem, muito bem? Veio a pé ou veio de trem?” Achava o máximo, mas detestava quando me deixava marca de batom vermelho nas minhas bochechas. Depois que cresci um pouco e fui estudar no colégio “Externato Duque de Caxias” os meus sentimentos se confundiam entre respeito e medo. Ela era brava e eu me encontrava com ela fora da escola, então eu achava que aquela disciplina do colégio deveria se estender para os momentos de lazer. Quando fui para o C.E. 10 de Maio, já com 10 anos, novamente mudou meu jeito de me relacionar. Aí ficou só o respeito, o medo se foi. Conversávamos, mas eu era criança, então meu relacionamento não era estreito. Chegou a época de sair de Itaperuna para estudar fora. Fui para Petrópolis e quando entrei para a faculdade de Psicologia nosso relacionamento se estreitou um pouco mais e conversávamos bastante. Voltando para a cidade 17 anos depois ficamos amigas. Sempre passava em sua casa e era sempre muito agradável conversar com a minha tia. Conversávamos coisas sérias, fazíamos um pouco de fofoca, brincávamos uma com a outra. Quando fui trabalhar com a inclusão da pessoa com deficiência na escola regular, não pude mais dividir com ela meus sucessos e meus fracassos em relação ao tema, pois ela já tinha sofrido um AVC e não conseguia se expressar direito e talvez não estendesse o que falávamos. Senti muita falta disso. Queria muito ter podido conversar com ela sobre o tema e como vínhamos desenvolvendo o trabalho. Sua escola foi a primeira, que tenho conhecimento, que aceitou em seu quadro de alunos crianças com deficiência. Foi a primeira escola inclusiva de Itaperuna. E isso quando nem se pensava em inclusão!
   Apesar de ser rígida em relação à escola, de dar importância enorme à disciplina, a minha tia era uma mulher afetuosa, moderna, que aceitava certos comportamentos e atitudes dos jovens. Era generosa. Muitos alunos estudaram sem pagar o colégio e nunca foram cobrados por isso. Acolheu muitas pessoas em sua casa e ajudou a todas sem distinção. Para a família era ponto de referência a quem todos prestavam deferência, a quem todos tinham respeito. Era, por assim dizer a matriarca, a chefe da família.

   Faz muita falta para todos nós o seu apoio e a certeza que sempre estaria ali quando precisássemos, mas com certeza nunca será esquecida por quem a conheceu e que teve o privilégio de participar de sua vida.



                                                                    

                                                        Tia Maria e eu

3 comentários:

Solange Côrtes disse...

Dona Maria Betão é mais uma pessoa da sua Família que fez história em Itaperuna - dificilmente será esquecida, até pq o Colégio continua formando gerações,com o selo de qualidade que leva o nome dela! Será nome de rua, com certeza - torço para que seja uma rua com mto verde e com acesso para pessoas com dificuldade de locomoção para pessoas que como ela, querem sair, viver a vida e fazer acontecer. Abraço!!! Sol

Osmar Junior disse...

estudei no externato nos anos de 1985 e 1986 e gostaria muito de reencontrar amigos daquela época....foi um tempo muito importante em minha vida e gostaria de relembrá-los com pessoas que fizeram parte dele, ah dona maria betão, regina, professora vera...

Luciani disse...

Boa noite Dalca
Eu estudei no externato ñ a época da Maria Betão atuante. Tive uma colega chamada Dalca, será vc?
Um abraço