sábado, 24 de agosto de 2013

DOCES COMUNISTAS

DOCES COMUNISTAS

   A família Hamam tem a crença de que é política e sempre acreditou que era da “esquerda”. Conta a lenda que alguns parentes do meu pai, lá no Líbano, eram tantas vezes presos por serem contra o governo atuante, que não desfaziam a malinha que levavam para a prisão. Não sei se é verdade, mas dá a dimensão histórica do compromisso da família com a política.  
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    Como todos os meus tios já nasceram aqui no Brasil, eles só conheciam a lenda e de um modo ou de outro se colocaram em contato com a política. Eram Comunistas! Sendo comunistas lutaram contra a ditadura. Meu tio Demétrio era atuante e foi até deputado. Foi preso durante a ditadura de Getúlio Vargas, indo para um navio em auto-mar, foi amigo de Graciliano Ramos e de muitos outros intelectuais comunistas. Meu pai lutou a favor do Petróleo, fez parte da campanha ” O PETRÓLEO É NOSSO”, foi também preso por causa disso e sorte a dele o irmão Uady (que não se envolvia com a política) ser da Secretaria de Segurança e livrá-lo algumas vezes.
    E assim crescemos: Meus primos que eram mais velhos se envolveram também na época da ditadura militar. Meu primo estudava em Ouro Preto e foi preso por causa de sua ideologia, como muitos estudantes. Minha prima, sua irmã, fugiu uma vez do Rio para Itaperuna, para se livrar da perseguição. Eu era criança e achei o máximo! Eu, quando comecei a entender certas coisas, também me encantei, talvez pela influência de meu pai, com o qual conversava muito e era o meu herói.
    Todos comunistas, todos de esquerda! Será? Eram sim. Comunistas que lutavam pela liberdade! Liberdade comunista? Lutavam pelo idealismo! Isso! Idealismo. Assim eram meus tios, meu pai, meus primos! Assim pensei que eu fosse! Mas como comunistas? Doces, inocentes e puros na sua crença! Não existem mais e acho que nunca existiram como eles. Meu pai dizia; “- Os fins justificam os meios”. Grande máxima comunista!  Nada! Não achava isso de jeito nenhum! Repito: Doce, ético... Assim como meus primos!  Acreditavam em um mundo melhor, com mais igualdade, sem discrepâncias sociais, imagem romântica que todos tínhamos do comunismo ou do que se pensava ser o comunismo.

    Doces comunistas românticos! Assim eram eles! Assim éramos nós!





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FIGURAS FOLCLÓRICAS




FIGURAS FOLCLÓRICAS

   Em Itaperuna existiam algumas figuras folclóricas e salvo poucas exceções eu tinha medo de todas. Algumas eram reais e uma foi criada pelo meu imaginário.


                                                                                                             

   As reais eram o Lampião, um negro que me parecia bem idoso, e que corria atrás das crianças com um porrete que fazia de bengala, o Enguiça que ficava no ponto de ônibus da papelaria Ita Gráfica e que ameaçava os alunos pequenos que esperavam o ônibus ali. Tinha também o Amigo, de quem eu não tinha medo, e que gostava de conversar e falava que ia casar depois da colheita. A Porca Ruça era uma mulher muito branca, sarará e sujíssima. A Jacaré que não era muito assustadora, mas corria atrás de nós sempre que a chamávamos pelo apelido. A mais famosa sempre foi a Maria, que não punha medo em ninguém, mas que várias gerações conheceram. Maria foi dessas pessoas que para no tempo em matéria de idade. Sempre foi do jeito que conheci. Nunca mudou.

   Mas de todos, o que mais me apavorava, era a personagem que eu tinha criado na minha imaginação. Era a Cabeluda. Eu a imaginava um monstro horroroso, cheia de cabelos por todo o corpo e rosto.          
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   A história começou com um comentário de meu avô. Eu estava chorando, provavelmente fazendo uma bela manha, e olhava para a casa da vizinha, que tinha um buraco na parede, coberto por uma tábua, um pouco acima do chão. Meu avô falou: “-Mas que cabeluda!” (a manha). Parei de chorar no mesmo instante imaginando que naquele buraco houvesse esse monstro que imaginei no momento do comentário. Foi o bastante! Exploraram meu medo. Meu avô arranjou uma casa para o monstro! Era um alicerce de uma casa começada que ficava na subida do caminho que vinha do centro da cidade para nossa casa. Algumas pessoas às vezes ficavam morando ali em baixo, pois era um alicerce bem alto. Alguns anos depois abrigou até uma oficina de bicicleta. Eu não passava ali tranquila! Nunca via o monstro, mas com certeza ele morava ali. Fiquei muitos anos com medo da cabeluda! Não sei quando entendi que ela não existia de fato, mas sempre desconfiei daquele lugar escondido que durante muitos anos existiu  naquela subidinha!

                                                                  



domingo, 18 de agosto de 2013

AJANTARADO




AJANTARADO

   Quem sabe o que é ajantarado? Lá em casa tinha ajantarado aos domingos.
   Ajantarado é uma refeição feita mais tarde que o almoço e mais cedo que o jantar aos fins de semana, para diminuir o trabalho na cozinha.
   Aos domingos acordávamos mais tarde, algumas pessoas da casa iam à missa e sempre tínhamos para o almoço frango ensopado. Para nós, as crianças, tinha um significado importante. Domingo é dia de ajantarado, que pronunciávamos “jantarado”. Era dia de às vezes, muito às vezes, tomarmos refrigerantes. Uma Grapette. Cada garrafa pequena vinha com uma tampinha,que tínhamos que tirar com abridor de garrafas, e que deveríamos juntar para formar a tal frase de “Quem bebe Grapette, repete”, já que cada uma vinha com uma palavra. Ou um Crush, que era um refrigerante com sabor super artificial de laranja. Às vezes era só Q-Suco, que escolhíamos pela cor, já que os sabores não eram muito diferentes!
   Meu avô Ibrahim, que morava conosco, gostava de almoçar e jantar cedo, mas só durante a semana. Domingo ele respeitava o ajantarado e à noite não tinha jantar, só um lanche. Que farra não jantar e sim lanchar! Era a total quebra de rotina! Adorávamos! Era sagrado. Nada de jantar!!
   Não lembro o que lanchávamos. Acho que talvez pão com manteiga, ou um queijinho. Não ficou na minha memória. Mas os dias de almoço tarde, o frango ensopado e o fato de ouvirmos: hoje é ajantarado e a importância que era, estão vivas na minha memória. E até hoje guardamos o hábito do almoço de domingo ser mais tarde, mais elaborado, mais festivo! Continuamos com o nosso “jantarado”!

    



LORRAINE






LORRAINE

   Lô, minha pequena Lô, tão intensa, tão presente, e tão maravilhosa. Marca sua passagem com tantas palavras, tantos gestos e inúmeras opiniões, certas ou erradas, inacreditáveis às vezes, mas opiniões, expressas de forma positiva, de forma segura. Um meteoro de sentimentos, uma luz que explode por onde passa. Tantas coisas para falar, tantos pensamentos para expressar...
   Inacreditável que o tempo tenha passado tão rápido e aquela pequena criança, tão viva, tão sapeca, e tão pirracenta tenha se transformado em uma mulher, mas que ainda busca, procura, como lá atrás fazia, um sentido para tudo, uma felicidade que de  tão grande, não existe em tempo real.
   Lorraine á assim: meteoro, furacão, rapidez em pessoa. O coração? Enorme!! Tão grande que às vezes transborda de tanto sentimento, tanta vontade de agradar e de amar e então, muitas pessoas não entendem as atitudes, as opiniões e o descarrilamento de palavras. Coração que além de querer amar, quer ser amada, respeitada e acarinhada.
   A pequena Lô não deve querer ser diferente nos seus sentimentos, mas pode ser mais poderosa em relação à procura de brechas no seu caminho. Achar sua independência, trilhar uma estrada só sua. Sair da estrada alheia e buscar o mundo pela sua própria luz, que é tão grande!
   Linda a minha pequena Lô! Uma mistura de mulher independente com criança carente. Gosta tanto de gostar, que se perde nesse gostar, transborda no seu amor, na sua vontade de agradar.
   Vi nascer, vi crescer, mas será que ainda é a minha pequena Lô? Será que ainda consigo adivinhar suas alegrias e suas tristezas? Acho que sim. Seu grande coração não mudou, só cresceu mais ainda, acolhendo tantas pessoas que já passaram,  as que ainda estão na sua vida e que com certeza acolherá ainda muitas outras que chegarão!
   Prossiga minha Lorraine, prossiga na sua vida que ainda tem tantos caminhos a serem percorridos! Seja sempre verdadeira e que o meteoro que te acompanha não se apague jamais! Brinde a vida com essa energia e calor! Seja feliz, seja amada!





domingo, 2 de dezembro de 2012

O INHAMBU

                                                                         

  
 INHAMBU



                                                     O INHAMBU


          O Inhambu, conhecido ainda no Brasil pelos nomes populares: pé-roxo, bico-de-lacre, chitão ou chororó; e em inglês "Tataupa tinamou", é uma ave pequena, de ampla distribuição geográfica no Brasil (habitando o nordeste, centro-oeste, sudeste e sul), Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. Seu canto consiste numa sequência de notas rápidas e descendentes. 
        O meu avô tinha um “pio de inhambu” que era usado para atrair o pássaro. Fiquei com essa herança quando ele morreu. O pio é meu. 
        Outro dia, revendo alguns objetos guardados me deparei com ele. Pensei que, na minha lembrança, o meu avô nunca tinha usado o tal piado para pegar nenhum pássaro, mas tinha sim, usado mais de uma vez para nos mostrar, ao meu irmão e a mim, como o tal inhambu fazia.
        Saímos certa vez a cavalo lá no sítio que tínhamos e fomos “piar inhambu”. Ficamos escondidos atrás de uns matos e árvores para ver o pássaro. Meu avô usou o pio e ficamos esperando aparecer a avezinha. Eu, bem criança ainda, não tinha nenhuma noção como era o tal pássaro e fiquei lá esperando que ele aparecesse. E ele apareceu. Só que eu não consegui vê-lo. Meu avô me mostrava meu irmão também, mas cadê que eu via?
       -“Não estou vendo”, dizia.
       -“Olha ele lá!” meu avô apontava.
       -“Onde?”
       -“Lá”, meu irmão falava.
       O fato é que ficamos lá até o pássaro ir embora e eu, ainda assim, não consegui vê-lo.
      Falei para o meu avô que não tinha visto o tal do inhambu. Depois de muito tempo, quando já era maior, consegui entender porque não o tinha visto. Eu estava esperando um pássaro grande, enorme. Algo assim do tamanho de um galo, de um peru, sei lá.... Como aquela criança ia ver um pássaro tão miudinho? Ninguém tinha falado que era pequeno! E na minha imaginação (que não era pequena) ele era muito importante, um bichão que precisava de uma ferramenta específica para atraí-lo, aquele pio de madeira, que meu avô vivia soprando ou imitando com um assobio. Nunca mais esqueci esse som. Posso fechar os olhos e imaginar meu avô que escutarei o piado do inhambu. Não sei tão pouco se algum dia capturou um dos bichinhos os quais “piava”. Não sei o porquê daquela atração que ele tinha pela ave. Talvez fosse uma lembrança da época em que era tropeiro e andava por esses caminhos, livres de civilização, onde os pássaros podiam voar livremente, só temendo um “tropeiro piador” qualquer. 
    O fato é que até hoje nunca vi um Inhambu pessoalmente, somente através de fotos e talvez nunca o veja, mas com certeza ele existe nas minhas lembranças infantis e faz parte de mais uma, de tantas histórias que vivi com o meu avô Ibrahim .
    Saudades de um tempo tão livre, tão inocente, onde pássaros grandes ou pequenos, onças inexistentes e o outras fantasias faziam parte de uma infância sem complicações, regadas por grandes afetos e certezas absolutas em relação ao futuro que teríamos.


                                   
                                                  O Pio de "piar inhambu"





                                             Eu e meu irmão Elias Jorge




                                                    
                             Meu irmão, meu avô, meu pai e eu



Para conhecer ou lembrar do  canto do Inhambu click sobre o amarelo.

 







quarta-feira, 26 de setembro de 2012

SEBASTIÃO FEREIRA DINIZ OU SOMENTE TATÃO

                                                             TATÃO





SEBASTIÃO FEREIRA DINIZ OU SOMENTE TATÃO
   Lembrei-me do Tatão. Do nada me veio a lembrança de fatos ocorridos que ficaram na minha memória. Numa velocidade atroz, como flashes de trailer de filmes, vieram tantas lembranças!
   Tatão era Sebastião Ferreira Diniz, irmão do meu avô materno e que tinha uma deficiência física provavelmente originária de um parto difícil, uma paralisia cerebral que, o decorrer dos anos, foi decisivo para seu agravamento. Naquela época, não existiam os recursos de agora, então Tatão foi passando da bengala, para o carrinho de 3 rodas, para a cadeira de rodas e daí para a cama. Com o cognitivo preservado, era de uma grande inteligência, crítico e um grande chantagista. Gostava de brincar de adivinhações com as crianças, mas tinha preferência por uma especificamente, que fazia sempre: “ O que é o que é? Uma caixinha de bom parecer, mas não há carpinteiro que a possa fazer?” A resposta era amendoim (na casca obviamente). E  ria , ria muito das coisas “mal feitas”, daquelas que davam errado.  Era esperto para saber aproveitar dos que o achavam bobo. Em época de eleição fingia que vendia seu voto e então ganhava sapatos de um, terno de outro e assim ia vivendo. Nunca deixou de ter uma atividade. Em épocas em que não havia facilidade para benefícios sociais, trabalhava no seu carrinho: vendia café, engraxava sapatos...
   Convivi minha infância toda com ele. Primeiro no carrinho, na cadeira de rodas (da qual tinha um ciúme enorme), e depois, quando foi para a cama. Era então mais complicado para mim, mas nunca tive medo, raiva, vergonha ou qualquer sentimento adverso. À noite ele gritava muito, ou melhor, chamava muito para que alguém o  virasse  na cama, rogando a morte, mas com uma vontade de viver imensa. Quando sentia alguma coisa, quando pensava que ia morrer, punha a “boca no mundo” e pedia para não morrer e que se chamasse o médico.
   Existem alguns fatos folclóricos em relação a ele que vou tentar reproduzir:
   Em determinada ocasião, em que ainda se locomovia com alguma independência, disse que ia se matar. Pegou uma bala de revólver e disse que ia engolir e que aí ia dar cabo à vida. Meu avô, seu irmão, já o conhecendo bem, disse que ele fosse em frente. Pegou então a bala e disse para ele engolir e saiu. Dias depois, quando a sua camisa foi para ser lavada, achou-se a bala dentro do bolso.
 Um de seus inúmeros prazeres era colocar apelidos nas pessoas: meu tio Enéas era Geleia Mocotó de Égua, minha mãe era Fré, tio Luiz era Zé Velho e Brucutu, tia Therezinha , a Perereca, o tio Betão era Alemão, e à Dindinha ele chamava Costa D´ África. Gostava muito de usar expressões engraçadas. Quando uma pessoa sumia, ficava algum tempo sem aparecer, lá vinha ele com a teoria de que a pessoa já tinha morrido e era um tal de :
“-Ah! Fulano abotoou o paletó, ou Fulano atravessou o córrego, ou ainda Fulano botou pijama de madeira.”
   Sendo ele uma pessoa de um medo desmedido de almas de outro mundo, era vítima de brincadeiras e de sua própria imaginação. Em uma época em que moravam numa casa que tinha um quintal grande, com muitas árvores , num dia de muito calor, foi tomar a “fresca” na beira do rio que passava nos fundos do terreno. Já estava anoitecendo e o Tatão nada de aparecer. Meu avô Ibrahim foi a sua procura e como viu que ele já se encaminhava para casa, esperou por ele debaixo de uma árvore com a mão apoiada nela. Veio caminhando com a cabeça baixa e quando chegou perto de onde estava meu avô levantou a cabeça e deparou com aquela pessoa parada. Não sei o que poderia estar pensando, não sei o medo que trazia, mas o fato foi que quando o viu, só falou: ”-Bicho, diabo!” e saiu correndo com toda a sua dificuldade e só parou quando chegou dentro de casa. Provavelmente o medo era tanto que ele deve ter visto ali uma coisa imensa e que não deixou reconhecer seu próprio irmão.
       Pronto: foi o suficiente para divertir meu avô e virar mais um motivo de gozação!
  Apesar desse medo todo, gostava de assustar algumas pessoas. Certa vez, estava lá no seu quarto, quando entrou uma dessas crianças curiosas. Deve ter falado alguma coisa ou mesmo feito alguma careta. O fato é que a menina levou tanto susto que só conseguiu soltar aquele grito aterrorizado depois que já estava na calçada de casa!
 Nós nos divertimos muito quando começamos contar as suas histórias, mas até hoje ele consegue assustar uma pessoa ou outra com elas. O sogro de minha sobrinha, o Paulinho, depois de umas dessas conversas, não sei por que, ficou com tanto medo do Tatão que nem dormiu à noite, achando que a claridade dos faróis dos carros que passavam à noite eram almas do outro mundo!
      Depois de já acamado, quando chamava para virá-lo na cama, o eleito era o meu pai, que levantava à noite, sem reclamar e o atendia. Em uma determinada noite, depois de chamá-lo e de ser atendido, meu pai voltou para a cama e é chamado outra vez:
    “-Nagib, Nagib!
     -O que é, Tatão? Acabei de te virar!
     -É só para te dizer que seu pijama é muito bonito!”
      Esse era o Tatão! O meu tio Tatão!
                                             Paulinho com medo do Tatão

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ERA UMA VEZ ...



Era um vez um ônibus. Uns homens armados e uma pessoa altamente protegida...
                                                                                                                                   
O ônibus era o Cidade do Aço  Rio X Volta Redonda, os homens eram cinco assaltantes armados e a pessoa era eu mesma! Inacreditável o que aconteceu aquela noite!

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Quando morava em Petrópolis, ia muito a na casa do meu irmão que reside em Volta Redonda. Como trabalhava o dia todo, para aproveitar o fim de semana , pegava o ônibus à noite para o Rio de janeiro e de lá o que ia para Volta Redonda. Isso era recorrente. E especialmente  naquele fim de semana, mês de Julho, eu estava indo para o aniversário do meu irmão.
Porém numa noite dessas o ônibus foi assaltado por 5 homens armados e aí começou uma aventura difícil de acreditar.
Os assaltantes entraram no ônibus na rodoviária como passageiros e em algum lugar na Avenida Brasil efetuaram o assalto. Vou tentar relatar, mas não sei se conseguirei  ser fiel aos fatos.
Eu estava sentada na poltrona 4(na frente, do lado da porta, no corredor) e havia um rapaz do meu lado, na poltrona 3(janela). Um dos assaltantes rendeu o motorista com uma arma, e os outros 4 também armados foram pegando tudo de todos. Na limpa foram pegando dinheiro, relógios, casacos, etc... . O que rendeu o motorista mandou que o rapaz que estava do meu lado saísse e fosse lá para traz, e com o revolver na altura da minha barriga mandou que eu chegasse para o canto e não olhasse para o seu rosto. Assim fiz ou tentei fazer, pois não consegui não olhar para a pessoa que estava na minha frente.  Olhar para onde ? Para cima? Para o lado? Mas as cortinas, por ordem deles, estavam fechadas. Só me restava olhar para frente e na frente estava aquela arma. Não sei porque, mas não tive medo e nem fiquei nervosa.
O homem então mandou que eu lhe entregasse meu dinheiro. Empurrei algumas notas maiores para o fundo da carteira e lhe dei o restante. Ele olhou aquela quantia e disse:
-Hum! Está pior do que eu!!
Guardou o dinheiro e o assalto continuou com os assaltantes “barbarizando” os passageiros. Não sei por que razão  pensaram que o rapaz que estava do meu lado era policial (o que não era correto), o colocaram deitado no corredor do ônibus e a impressão que tínhamos era que em qualquer momento eles atirariam no rapaz.
Bem, assalto realizado, eles decidiram descer em um local em Nova Iguaçu onde havia um carro esperando. Aí é que começou a acontecer  uma coisa “sui genere”.
O assaltante da frente me perguntou;
-Tem para o ônibus?
Eu disse:
_ Não. Dei todo o dinheiro!
Ele então tirou quase todo o dinheiro que eu tinha dado e me deu de volta.
-Toma aqui!
O outro assaltante veio de traz querendo puxar minha bolsa e eu a segurei  e disse que já tinha dado o dinheiro.
E o assaltante da frente;
-Vamos! Ela já me deu o dinheiro!
Tentaram puxar minha bagagem que estava no bagageiro, mas como tinha um pezinho na minha bolsa ela agarrou e não a levaram. Tentaram puxar a bolsa do rapaz que estava do meu lado, mas a alça agarrou no meu pé, então na pressa largaram-na para traz.
Enfim, não me levaram nada. Nem joias, já que eu estava com cordão e pulseira de ouro, relógio, casaco e principalmente o presente de aniversário do meu irmão.
Depois que desceram, o rapaz que estava do meu lado veio desesperado a procura da sua bagagem e eu calmamente falei que eles não tinham levado pois havia agarrado no meu pé.
Ele disse então que eu tinha salvado o dia dele, pois ali dentro estava o seu salário e o presente de 15 anos da sua filha . Perguntou então se estava tudo bem e se eles tinham feito alguma coisa e eu respondi que estava tudo bem e que  o assaltante tinha me devolvido a maior parte do dinheiro.
Fui alertada então,  que eu tinha corrido um grande risco, pois se eles tivessem que ter levado algum refém eu seria a pessoa, porque estava na frente. Aí sim, percebi o risco que eu tinha corrido. Mas ainda assim não fiquei nervosa, apenas um pouco assustada e tremendamente surpresa com que tinha acontecido. Todas as pessoas ficaram sem o seus pertences, inclusive casacos e eu com tudo.
Mas o assalto serviu pelo menos para uma coisa! Toda vez que eu chegava a Volta Redonda, telefonava para o meu irmão ir me pegar na rodoviária e ficava lá esperando, mas desta vez quando telefonei e falei que tinha sido assaltada, a ligação caiu e nunca ele chegou tão rápido para me pegar!


Não sei bem porque fui poupada deste jeito, mas acredito que talvez eu estivesse  muito mais protegida do que todas aquelas pessoas, ou então somente o assaltante foi com a minha cara não é????

                                              

PULE UMA CASA (E CONTINUE A JOGAR...)




PULE UMA CASA (E CONTINUE A JOGAR...)

A vida da gente em alguns momentos assemelha-se a um jogo de tabuleiro, onde tem que se pensar em pular uma casa e continuar a jogar. O peão tem que avançar casa a casa porque ao final do tabuleiro espera-se um vencedor. Com o decorrer dos anos, passa a ser assim no trabalho, nas convivências, nos relacionamentos formais e informais. “Pule uma casa e continue a jogar, está na sua vez...”. E na casa que foi pulada o que ficou afinal? Ressentimentos, mágoas, momentos alegres ou simplesmente fatos que são pulados e esquecidos? Não sei a resposta, mas sei que pautam o resto do jogo, são os determinantes que vão fazer com que se ande mais rápido ou mais devagar, ou que farão com que se pulem mais casas ou não. Um passo a mais ou a menos em um tabuleiro de jogo faz toda a diferença e determinará com que peão será dividida a mesma casa do jogo, qual apenas passará por você e qual trará influência na jogada.
    Pulei muitas casas na minha vida. Nelas ficaram fatos que não foram esquecidos, mas que fizeram a diferença para a próxima jogada. Ficaram palavras que se fossem ditas no jogo teriam uma penalidade e perderia a jogada, ficaram atitudes que tiveram que ser mudadas, pensamentos que não deveriam ser expostos, sentimentos que deveriam ser camuflados, relacionamentos que cresceram e outros que se perderam. Pulei casas na minha família, no meu trabalho, nas minhas amizades. Foi necessário para continuar o jogo e tentar vencer a partida ou pelo menos chegar ao final dela.
    Fazemos isso durante toda a trajetória de nossas vidas: “pule uma casa e continue a jogar” e quem não segue as regras do jogo, quem não pula a casa ou quem não continua a jogar está fora da partida, perde a vez ou volta para a primeira casa começando novamente. Mas não dá para começar novamente como se casas não tivessem sido andadas porque a cada minuto somos pessoas diferentes, hoje sou diferente do que eu era há 24 horas e serei diferente amanhã. Há quem desista do jogo (não quer começar outra vez), há os que começam novamente com muita má vontade, há os que recomeçam como se fosse a primeira vez esquecendo-se que estão na situação de recomeço porque não seguiram as regras e assim vamos seguindo: pulando casas e continuando a jogar..., pulando casas e continuando a jogar..., pulando casas e continuando a jogar...




segunda-feira, 9 de julho de 2012

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA





 SOVACO FROUXO
  Meu avô morava na roça e tinha ainda os filhos novos. Minha mãe e sua irmã Therezinha resolveram fazer um bolo. Mas a pessoa que sabia onde estavam os ingredientes não estava em casa. Naquela época, na roça não se usava fermento para o bolo crescer e sim bicarbonato. Encontraram um vidro com um pó branco e colocaram no bolo. Depois de pronto não tiveram coragem de comê-lo porque ficaram em dúvida que pó branco era aquele. E se fosse veneno? Apareceu então a vítima. Uma mulher cujo apelido era Sovaco Frouxo, porque a tudo se referia assim ( “Dancei até ficar de sovaco frouxo”... etc) . Perguntaram-na se queria um pedaço de bolo e ela aceitou imediatamente. Deram o pedaço e ficaram vigiando se a criatura ia cair e se ia cair antes ou depois da porteira. Bem, a mulher não caiu e foi embora feliz com o pedaço de bolo. Quando Maria José chegou perguntaram o que havia naquele vidro e ela respondeu que era sal de glauber. Ficaram aliviadas porque a única coisa que Sovaco Frouxo poderia ter tido foi uma bela diarréia. 


                                                Minha mãe (Edna)

                                             Minha mãe e a irmã Therezinha



                                                       Didinha (Maria José)


Tia Therezinha


BICHO  CH...
   Minha bisavó materna, vovó Sinhá, contava uma história de arrepiar e jurava que era verdade e que o fato aconteceu em sua presença. Estudava ela na cidade de Santa Maria Madalena e volta e meia um bicho invisível piava na casa da professora com a qual tinha aula. Um dia, o tal bicho foi piar na casa de uma mulher cuja filha estava muito doente. A mulher desesperada perguntou quem era, se era uma alma penada e porque piava tanto. Então a coisa que piava contou que ele tinha difamado a filha de um homem chamado Pedro Ch... e que este o tinha amaldiçoado e só poderia parar de piar quando fosse perdoado. A mulher foi procurar o tal fazendeiro, que por sinal era padrinho de uma tia avó. Andou muito à procura do Pedro Ch... e quando o encontrou, pediu que ele perdoasse à tal pessoa que estava piando na sua casa e que estava prejudicando sua filha doente. Depois de muito relutar, o fazendeiro concordou e falou que ele fosse piar então nas profundezas do inferno. Contam que o bicho deu um piado altíssimo e muito agudo e nunca mais piou em lugar nenhum.



                                                     
                                          VOVÓ SINHÁ (minha bisavó materna)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DE UM CALDEIRÃOZINHO

MEMÓRIAS DE UM CALDEIRÃOZINHO

   Não me lembro como saí daquela fábrica de panelas, não me lembro tão pouco como fui parar naquela casa.  A única coisa que me lembro (e bem) é de como ganhei um dono.  Ele, o meu dono, me adorava. Sem falsa modéstia posso dizer que me idolatrava! Afinal o que seria de suas fantasias sem a minha existência? Como ele poderia querer parecer aquele Dedé que ficava por lá e que dividia de certa forma sua atenção comigo, se eu não estivesse por lá? Dorcélio ou Dedé como o meu dono o chamava, trabalhava no sítio e almoçava no terreiro da casa. Meu pequeno dono era chamado de Elias Jorge e tinha uns três anos quando cheguei a suas mãos. A sua pouca idade não invalida a minha importância e só a aumenta. Não estou sendo arrogante ou metido, pois só eu sei como fui importante para ele. Vou contar um pouco de nossa intimidade. Meu dono pedia para que o seu almoço fosse servido em mim. Mas não era de qualquer maneira! Tinha um método especial! Afinal tinha que ser igual ao tal do Dedé!
   O ritual era o seguinte: a mãe de meu pequeno dono me arrumava de forma muito carinhosa, mas tinha que ser o feijão por baixo e depois o resto do almoço. Então ele sentava na escadinha da casa que saia para o terreiro, colocava uma toalhinha na mão e me segurava com cuidado. O chapéu tinha que ficar no joelho, como o daquele Dedé...
   Acho que meu dono pensava que era muito legal ser um campeiro, cuidar de plantações, usar a enxada, mexer com os animais e tenho quase a certeza (não sei bem, pois ele não me confessou isso) que não queria mais nada da vida. Só ser igual ao Dedé.
   Sem querer parecer importante, posso afirmar que os sonhos do meu pequeno dono, só aconteceram porque eu estava ali para que ele pudesse me colocar na palma de sua mão e pensar que era o Dedé. Como era bom me sentir importante, parte de uma fantasia inocente! E foi assim durante um bom tempo. Depois meu dono cresceu e eu não me dei conta que tinha ficado esquecido. Fiquei triste, mas não magoado.             Fiquei guardado, não sei bem onde e nem sei por quanto tempo. De tempo em tempo alguém me pegava e me usava para uma coisa ou outra. Mas por onde andava o meu pequeno dono? Neste período perdi um pedaço e até a minha tampa desapareceu...
Mas o amor de um caldeirãozinho por seu dono nunca acaba e eu tinha esperança de que um dia ele, o meu pequeno dono, iria aparecer.
Meus sonhos não foram em vão. Meu pequeno dono apareceu! Pegou-me e com ele fui para a casa que agora é sua. Longe, muito longe do sítio de suas fantasias, mas perto de suas lembranças. E agora minha gente, embora faltando um pedaço e um pouco escurecido pelo tempo, estou aposentado! Meu dono não é mais o meu pequeno. É adulto, mas não me esqueceu e me reservou na minha aposentadoria um lugar de honra e estou lindo! Agora não tenho mais comida no meu interior. Tenho vida! A vida representada por uma planta linda e verde que enfeita sua linda casa e me dá a sensação que continuo muito importante para o meu dono. Obrigado meu pequeno, por não esquecer que fiz parte se suas fantasias e ajudei a construir um homem que cultiva sentimentos e saudades!




                                     Dorcélio e  o dono do caldeirãozinho






sábado, 22 de outubro de 2011

SIMPLESMENTE LIZ

SIMPLESMENTE LIZ


     Já nasceu tão bonitinha! Com traços delicados que permaneceram na adolescência e continuam na vida adulta. Mas isso não importa muito. O que vale é o que é agora. A mulher que se tornou. Nunca um nome combinou tanto com uma pessoa. Forte, porém ao mesmo tempo suave e simples. Assim é a sua dona. Simples! Fácil de ser gostada, de fácil convivência! Brava às vezes, mas sem deixar que se percam o carinho e amor que as pessoas sentem por ela. Quando criança não tinha preconceitos. Brincava com todos sem distinção! Adulta, tornou- se espirituosa, divertida e novamente simples! Vendo como trata os pacientes que vão ao seu consultório ou a encontram fora dele vejo mais uma vez aquela criança que não se importava com classe social ou com aparências, mas vejo também uma mulher extremamente doce e ao mesmo tempo competente. Uma mulher linda, mas sem vaidades fúteis. Vejo minha sobrinha pequenina, brincando (e como brincou...) com tanta criatividade, com tanto empenho como se estivesse fazendo uma coisa muito importante (e era!) e vejo minha sobrinha adulta, realizada, feliz, com tanto prazer pela vida como se estivesse novamente brincando.  Brincando de viver, desligada das tarefas rotineiras, esquecendo de datas de vencimento, trocando ditados aos citá-los e até mesmo errando o destinatário de transferências bancárias, sem “esquentar a cabeça” com certas coisas, o que a torna leve, sem “encucações”, brincando de ser filha, neta, sobrinha, esposa, nora, amiga e de ser simplesmente ela. Brinque sempre, minha sobrinha. Brinque! Para continuar profissional competente, pessoa agradável, mulher doce, porém firme. Brinque! Para ver e sentir a vida com leveza. Brinque! Para ser feliz, muito feliz, e para ver as pessoas com os olhos que vê hoje. Brinque! Para ser crítica e divertida. Para ser séria e responsável. Para ser simplesmente você! Simplesmente Liz! 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

CAUSOS


           Essas foram algumas histórias que nós ouvíamos de meu avô Ibrahim, pai de minha mãe e as quais meu irmão reproduziu.

                                    Tião G., fazendeiro conhecido na região de Itaperuna, muito amigo de meu avô Ibrahim, tinha sempre algum causo ocorrido com a sua pessoa que impressionava aos ouvintes, os quais quase sempre julgavam ser mentira do narrador.
Na verdade, não sabemos até hoje se os causos eram  mesmo do Tião ou uma forma de o Vovô contar as mentiras sem que fosse o responsável por elas.
Segue algumas estórias ocorridas com o citado:                                    

      Tião deixou sua fazenda, foi até a cidade resolver alguns problemas e fazer compras de mantimentos, que porventura, não eram produzidos em sua fazenda.
        Após retornar com estes mantimentos colocados em um “picuá”, na garupa de seu cavalo, foi conferir as mercadorias ao chegar em casa e deu pela falta de um pão. Pensou até em voltar para recuperá-lo, porém como estava começando a chover, desistiu da empreitada.
No dia seguinte ao levantar para tirar o leite, caminhando até ao seu curral, que ficava ao lado da estrada, encontrou com vários vizinhos que iriam à cidade, retornando para casa. Ao questioná-los porque não seguiram viagem, os mesmos informaram que tinha caído uma enorme árvore na estrada, interditando-a.
Tião, após terminar de tirar o leite, selou seu cavalo e foi até o local informado do ocorrido, e lá chegando, percebeu:
        A estrada estava interditada, não por uma enorme árvore, como tinha sido informado, mas pelo pão que havia caído do seu “picuá” e com a chuva que durou toda a noite, inchou, impossibilitando a passagem.



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 Tião G. precisava fazer uma viagem para adquirir algumas cabeças de gado, então tomou a decisão de que sairia no dia seguinte bem cedo, antes de o dia raiar.
No dia seguinte acordou cedo, tomou café, pegou sue melhor arreio, para impressionar os outros fazendeiros, colocou seu canivete na cinta e foi até o pasto para encilhar a sua melhor mula e partir.
Após feito como planejado, pegou estrada, porém notou que a mula insistia em entrar pela mata que margeava a estrada. Tião aguentou o máximo que pôde controlando a mula na estrada, então soltou a rédea e deixo que fosse para onde bem entendesse.
Como a mula entrou pela mata Tião pegou seu canivete, que deveria ter uns 15 cm de comprimento de lâmina e começou cortar as árvores para que as mesmas não o ferissem, árvores estas de até uns trinta cm de diâmetro.
Quando o dia clareou, Tião percebeu que ao arriar sua mula tinha se enganado, havia arriado uma anta, então usando o seu bom canivete, cortou a barrigueira e saltou, levando consigo o arreio e voltou a pé para casa.
                                     


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Tião G. precisou ir até a cidade comprar remédio para sua esposa, arriou seu melhor cavalo, pois precisava fazer a viagem o mais rápido possível e partiu a galope.
Chegando a cidade, conversou rapidamente com o farmacêutico, explicando o que a esposa sentia, pegou o remédio e tomou o caminho de volta para casa sempre à galope.
Quando faltavam uns 5 km para chegar à sua fazenda, Tião percebeu que seu cavalo falseou, neste momento ele apertou a pressão da espora e prosseguiu, ao chegar no quintal de sua casa, parou a montaria e apeou. Neste momento o cavalo caiu e Tião percebeu que estava morto.
Vangloriando-se do falecido companheiro, contava a todos que o cavalo havia morrido a 5 km da sua casa,  mas como estava muito embalado, só foi cair quando chegou.




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Tião G. saiu cedo de casa para caçar um gambá para o almoço de sábado, era um de seus pratos favoritos, um guisado de gambá, e sábado, porque domingo como sempre, tinha frango ensopado com batata.
Adentrou à matinha que tinha perto de seu sítio em companhia do Seu Nome, seu cão de caça, vira lata, mas muito bom, que logo começou a farejar o bicho.
Uma meia hora depois, o gambá foi descoberto, e após uma rápida perseguição, subiu em uma árvore e lá ficou longe do alcance do cachorro do Tião.
Tião, chegando ao local, viu o gambá, preparou sua espingarda, mirou e atirou. Daquela distância, ele não errava nunca.
Esperou baixar a fumaça e aguardou a queda do pobre animal, mas nada aconteceu. Estumou o cachorro para saber para onde o bicho tinha fugido, porém este, mesmo sendo bom farejador, não achou nenhum rastro.
Tião, desiludido, voltou para casa e lá chegando, deu a má noticia para Dona Maria, sua esposa e sugeriu que naquele sábado ela tirasse o lombo de porco que estava na gordura para o almoço e foi guardar sua velha espingarda na despensa, onde ele a pendurava em um prego fixado na parede.
Quando pendurou a espingarda, como sempre com a boca do cano para baixo, percebeu que algo caiu no chão, então descobriu que era o gambá. Ele não tinha errado o tiro, o gambá que atingido caiu da árvore sem que ele percebesse por causa da fumaça e entrou direto pelo cano da velha arma.
Estava garantido o almoço  o lombo ficou para outra ocasião e Tião continuou com a fama de bom atirador.



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 Na propriedade do Seu Lulu C. ¹ havia um pedaço de terra que era muito pantanoso, porém bom para o plantio de arroz.
Seu Lulu, para semear as sementes, tinha que arar a terra e como não tinha o recurso de um trator, utilizava nesta tarefa três boas juntas de bois que possuía.
Perguntado pelos vizinhos se era muito “dificultoso” arar aquele trecho, respondia:
-          É difícil sim, só um camarada forte que nem eu consegue, pois toco os bois para o atoleiro, seguro firme no cabo do arado. Tem certos trechos que só fica aparecendo os chifres dos bois, mas eu não largo o cabo do arado.
                                                 

(1) Seu Lulu tinha uma propriedade vizinha à do nosso Pai, que contava essa passagem