Eu e meu avô éramos uma dupla imbatível. Vivemos juntos travessuras que uma criança e um avô criativo podem aprontar.
Passeávamos juntos todos os dias e foi com ele que aprendi a fazer contas, o que não achava nada chato, já que fazíamos isto através das placas das casas pela quais passávamos nos nossos passeios matinais. Com ele aprendi a gostar de desafios mentais e de cartas enigmáticas. Acho que devo a essa convivência o fato de gostar e –modéstia à parte- trabalhar bem com crianças e principalmente a necessidade que acho de se proteger pessoas idosas e o carinho que elas me transmitem.
Era uma vida leve que não sei se atribuo ao fato de ser criança, à convivência com uma pessoa inteligente e de bem com a vida ou se aos dois juntos. A verdade é que ninguém poderia ter um avô melhor e mais rico em imaginação do que eu.
Aprendi a andar a cavalo, a ver formas variadas nas nuvens, a ficar deitada observando o céu e aprendi que não precisa de muitas coisas para fazer uma criança feliz: um carretel para virar carrinho, um pedaço de bambu para se transformar numa espingardinha cuja munição eram caroços de milho ou feijão, umas histórias cheias de mistérios ou algumas vezes com fatos macabros, mas essas só valiam se contadas à noite.
Meu avô era um homem crítico, que em tudo via graça e não deixava passar nada que lhe chamasse a atenção, principalmente se fosse um fato que pudesse deixar a pessoa sem graça. Era também muito inteligente. Estava sempre inventando alguma coisa ou em idéias ou objetos.
No sítio que tínhamos explorávamos todos os espaços a pé ou a cavalo. Fazíamos sandálias de palha de bananeira, imaginávamos tantas coisas e entre elas uma onça morando e nos espreitando no meio de meia dúzia de árvores que tinha em um morrinho chegando perto da casa do sítio. Só sei que eu por ali passava morrendo de medo de a onça pular em cima de mim e, enquanto andava, não tirava os olhos de lá esperando pela pintada e pronta para correr.
Ele adorava ler livros que falassem de curiosidades e passou isso para mim também. Quem descobrisse alguma curiosidade nova contava para o outro. Foi assim que fiquei sabendo que as lagartixas chegaram ao Brasil através do navios negreiros. E assim íamos levando a vida todos os dias.
Uma coisa o aborrecia muito quando fui crescendo. Não gostava de me ver conversando com nenhum menino. Não falava nada, mas ficava sem falar comigo durante alguns dias.
Foi assim até o dia em que saí de casa para estudar. Ele não me quis ver sair, então saiu antes e foi para a casa de meu tio, só voltando depois que eu já havia ido. Nunca falou nada, mas acho que ele não concordou com essa minha saída.
Existem pessoas indescritíveis e assim era meu avô. Jamais farei justiça à pessoa que ele era através da escrita.
Tantas coisas boas vivemos que não cabem no papel, ficam só na lembrança e na saudade de uma vida tão boa e tão cheia de carinho e riquezas de idéias.
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