domingo, 24 de novembro de 2013

FOTOGRAFIAS DE RECORDAÇÕES E EMOÇÕES







FOTOGRAFIAS DE RECORDAÇÕES E EMOÇÕES

   Deveria existir uma máquina que fotografasse recordações. A imagem sairia exatamente como estamos pensando, como estamos recordando. É muito difícil ser fiel em palavras ao nos referirmos às imagens dos nossos pensamentos,  das nossas recordações. Como ser fiel ao descrever a nossa árvore, a taipa, no quintal do nosso sítio? Como fazer outras pessoas entenderem como ficavam os arreios colocados naquele travessão na horizontal sob ela? Não dá para contar em palavras, sem imagem nossos passeios a cavalo, as nossas pescarias no rio ou no valão. Como passar o drama da travessia do valão cheio de lama nas costas do meu irmão? O aperto que passamos com o meu avô o mandando atravessar me carregando, as caras assustadas dele com medo de não conseguir e a minha de cair naquele lamaçal? E o burro que se chamava Brinquedo? Quando empacava com o meu irmão montado e o meu avô Ibrahim o espetando para que andasse, mas ele só empinava! Como eu me assustava com medo dele derrubar o meu irmão! Não. Não dá para imaginar quem não estava lá. Onde está a foto deste momento?
   Como descrever a cor do cachorro que se chamava Sultão e como mostrar o pavor que ele tinha de pedras e a ira com que enfrentava um cabo de vassoura? E a vaca que correu atrás de mim? Eu, saída de uma doença, que não lembro o que era (acho que gripe), verde de tanto tomar chá de uma erva chamada Macaé, fui ver meu avô e meu irmão tocar umas vacas. Fiquei na porteira, quando uma delas olhou muito feio para mim e avançou. Corri, corri, corri muito, até chegar a casa. Onde está a foto dessa recordação, do medo que passei e da certeza que a vaca estava realmente atrás de mim?
   Alguém vai entender quando eu contar que tinham dois copos lá no sítio, um vermelho e outro amarelo, com cheiro de leite e que eram exatamente da cor de duas camisas que a minha mãe tinha? Onde está registrado?
   As nossas escapadas de casa, deixando nossos pais dormindo, para irmos ao curral cedinho para vermos tirar leite, o chiqueiro que ficava perto da tulha, onde nosso pai guardava os sacos de arroz colhido e sobre os quais brincávamos de escalar, o terreiro de pedra (que era de cimento), onde se secava o arroz e onde brincávamos quando estava vazio, os espanta-camarada, que é um espinho em pendão que jogávamos nas costas um do outro... Quem consegue saber exatamente como era a não ser eu e meu irmão? Mas... se tivesse uma máquina de fotografar recordações...
   A nossa viagem para o sítio, a emoção de ficar esperando o ônibus e depois a caminhada de 3 km para chegarmos até a nossa casa. O prazer de cortar caminho pelo pasto e sermos atacados por quero-queros. A magia de parar para beber água na casa de Dona Anita, que era uma mulher tão pequenina e que morava com seu marido seu Manoel, numa casa tão pequenininha com um chão de terra batida, mas que brilhava tanto que parecia casa de boneca. Quem poderia registrar minha sede constante ao passar por ali e beber aquela água embaçada, mas que para mim era uma delícia. Onde está a expressão de aborrecimento da minha mãe que aparecia sempre que eu atrasava a volta para pegar o ônibus? E o prazer de ser carregada no pescoço do meu pai no trajeto do sítio para a estrada quando me cansava?
   Quem poderá saber hoje como era o apito do trem que passava do outro lado do rio ao entardecer e que me dava uma sensação de tristeza, que eu não entendia o que era? Como mostrar a cena engraçada que era quando comíamos as traíras pescadas pelo meu avô e que engasgávamos com as espinhas e que minha mãe mandava comer angu? Come angu...Come angu...
   São muitas lembranças, incontáveis lembranças, tão vivas para nós que as vivemos, mas sem significado ou emoção para quem as lê ou ouve.
    Mas... se tivesse uma máquina de fotografar recordações...



   

TIA MARIA







TIA MARIA
  
  Maria Betão tornou-se uma lenda em Itaperuna. Educadora, batalhadora, dona de uma escola de sucesso e que é respeitada até hoje. Por que Maria Betão? Na família Boechat tinham muitas Marias então para denominá-las usavam-se os nomes dos pais, então era Maria do Betão, Maria do Joque etc. Ficou o nome e muitas pessoas até hoje acham que é seu nome próprio. Corria um boato, e eu acho que muita gente ainda pensa assim, que ela havia ficado paraplégica, pois tinha feito regime para emagrecer. Mas não. Ela foi acometida por um vírus na sua coluna e apesar de tratar, não teve jeito. Era uma mulher vaidosa, bonita. E antes de ficar doente, morava em Niterói, onde estudou, se vestia muito bem, só usava salto alto e se divertia muito! Depois que surgiu sua deficiência, houve necessidade de algumas adaptações assim que voltou a morar em Itaperuna. Precisava de uma pessoa boa, honesta e dedicada que a ajudasse, então caiu do céu a Regina, guardiã de todas as horas. Mais, muito mais! Foi sua amiga, sua filha, sua protetora. Foi fiel até o fim. Foi quem acolheu suas alegrias, tristezas, decepções, raivas, e todos os tipos de sentimentos. Tia Maria não seria tia Maria sem a Regina. Muitos anos depois chegou a Claudiane, sobrinha da Regina e que manteve junto com a tia a dedicação à Maria Betão.
    Essa era a mulher chamada Maria. Mas essa não é a minha tia Maria. A minha tia Maria fez parte da minha vida desde que nasci. Era minha tia avó e minha madrinha. Quando, bem pequena, estava aprendendo a rezar a Ave–Maria, a minha mãe mandava que eu repetisse: “Ave Maria, cheia de graças...”, mas eu só repetia: “Tia Maria...”
   Passei por vários sentimentos em relação a ela. Primeiramente era uma tia muito engraçada, que toda vez que ia à sua casa ela me falava: “Tudo bem, muito bem? Veio a pé ou veio de trem?” Achava o máximo, mas detestava quando me deixava marca de batom vermelho nas minhas bochechas. Depois que cresci um pouco e fui estudar no colégio “Externato Duque de Caxias” os meus sentimentos se confundiam entre respeito e medo. Ela era brava e eu me encontrava com ela fora da escola, então eu achava que aquela disciplina do colégio deveria se estender para os momentos de lazer. Quando fui para o C.E. 10 de Maio, já com 10 anos, novamente mudou meu jeito de me relacionar. Aí ficou só o respeito, o medo se foi. Conversávamos, mas eu era criança, então meu relacionamento não era estreito. Chegou a época de sair de Itaperuna para estudar fora. Fui para Petrópolis e quando entrei para a faculdade de Psicologia nosso relacionamento se estreitou um pouco mais e conversávamos bastante. Voltando para a cidade 17 anos depois ficamos amigas. Sempre passava em sua casa e era sempre muito agradável conversar com a minha tia. Conversávamos coisas sérias, fazíamos um pouco de fofoca, brincávamos uma com a outra. Quando fui trabalhar com a inclusão da pessoa com deficiência na escola regular, não pude mais dividir com ela meus sucessos e meus fracassos em relação ao tema, pois ela já tinha sofrido um AVC e não conseguia se expressar direito e talvez não estendesse o que falávamos. Senti muita falta disso. Queria muito ter podido conversar com ela sobre o tema e como vínhamos desenvolvendo o trabalho. Sua escola foi a primeira, que tenho conhecimento, que aceitou em seu quadro de alunos crianças com deficiência. Foi a primeira escola inclusiva de Itaperuna. E isso quando nem se pensava em inclusão!
   Apesar de ser rígida em relação à escola, de dar importância enorme à disciplina, a minha tia era uma mulher afetuosa, moderna, que aceitava certos comportamentos e atitudes dos jovens. Era generosa. Muitos alunos estudaram sem pagar o colégio e nunca foram cobrados por isso. Acolheu muitas pessoas em sua casa e ajudou a todas sem distinção. Para a família era ponto de referência a quem todos prestavam deferência, a quem todos tinham respeito. Era, por assim dizer a matriarca, a chefe da família.

   Faz muita falta para todos nós o seu apoio e a certeza que sempre estaria ali quando precisássemos, mas com certeza nunca será esquecida por quem a conheceu e que teve o privilégio de participar de sua vida.



                                                                    

                                                        Tia Maria e eu

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

HERANÇAS DE MEU PAI







HERANÇAS DE MEU PAI

   Meu pai me deixou muitas heranças. Considero-as todas e de uma forma muito carinhosa.
  Ele deixou uma casa para todos nós que procuro conservar e melhorar para nosso conforto, mas também em memória a ele que a conseguiu com esforço e com orgulho. Deixou também sua coleção de revista “Globo Rural”. Mas para mim, exclusivamente ele deixou mais algumas coisas.
    Tem velório de alguma pessoa conhecida?  Eu vou!  Fiquei também responsável pelo túmulo da família. Compro a tinta, procuro um pedreiro e mando pintar na época de Finados. Tem recadastramento de túmulos? Eu faço. Parece macabro? Não é!  É engraçado! Brinco dizendo que são heranças que meu pai deixou para mim. Tem muitas outras, como o interesse pela política,a necessidade de  afastar os copos ou garrafas das beiradas das mesas, para não derrubar, comer torradas queimadas, gostar de pimenta e limão, comer o que for colocado à mesa, tentar não ficar com raiva das pessoas, gostar de crianças, gostar de conversar com diferentes pessoas, a vontade de estar sempre pronta para ajudar a quem solicitar, dar prioridades a coisas que não sejam materiais, entender que “cada um com a sua sorte” não sendo necessário invejar quem tem mais...
   Meu pai também deixou sua moral reta. Seu caráter firme e honesto. A certeza de que as pessoas devem ser respeitadas, a disponibilidade afetiva, o coração sempre pronto ao carinho, a leveza com que via e vivia a vida, a alegria sempre presente, a adaptação a todas as situações que lhe eram apresentadas, a adequação ao viver. Desejo fazer a minha vida tão leve, apesar de alguns fardos que carregou, como ele fez a dele. Desejo sempre sua alegria e de seu bem estar perante o viver. Essas heranças ainda tento que sejam minhas também, mas nem mesmo sei se posso consegui-las integralmente. Eram propriedades dele, exclusivamente dele. Dando sorte, talvez, à medida que passem os anos, possa conseguir algumas delas e averbá-las ao meu acervo.

Desejo conseguir que essa herança chegue a mim. Quero ser como ele quando crescer!





sábado, 24 de agosto de 2013

DOCES COMUNISTAS

DOCES COMUNISTAS

   A família Hamam tem a crença de que é política e sempre acreditou que era da “esquerda”. Conta a lenda que alguns parentes do meu pai, lá no Líbano, eram tantas vezes presos por serem contra o governo atuante, que não desfaziam a malinha que levavam para a prisão. Não sei se é verdade, mas dá a dimensão histórica do compromisso da família com a política.  
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    Como todos os meus tios já nasceram aqui no Brasil, eles só conheciam a lenda e de um modo ou de outro se colocaram em contato com a política. Eram Comunistas! Sendo comunistas lutaram contra a ditadura. Meu tio Demétrio era atuante e foi até deputado. Foi preso durante a ditadura de Getúlio Vargas, indo para um navio em auto-mar, foi amigo de Graciliano Ramos e de muitos outros intelectuais comunistas. Meu pai lutou a favor do Petróleo, fez parte da campanha ” O PETRÓLEO É NOSSO”, foi também preso por causa disso e sorte a dele o irmão Uady (que não se envolvia com a política) ser da Secretaria de Segurança e livrá-lo algumas vezes.
    E assim crescemos: Meus primos que eram mais velhos se envolveram também na época da ditadura militar. Meu primo estudava em Ouro Preto e foi preso por causa de sua ideologia, como muitos estudantes. Minha prima, sua irmã, fugiu uma vez do Rio para Itaperuna, para se livrar da perseguição. Eu era criança e achei o máximo! Eu, quando comecei a entender certas coisas, também me encantei, talvez pela influência de meu pai, com o qual conversava muito e era o meu herói.
    Todos comunistas, todos de esquerda! Será? Eram sim. Comunistas que lutavam pela liberdade! Liberdade comunista? Lutavam pelo idealismo! Isso! Idealismo. Assim eram meus tios, meu pai, meus primos! Assim pensei que eu fosse! Mas como comunistas? Doces, inocentes e puros na sua crença! Não existem mais e acho que nunca existiram como eles. Meu pai dizia; “- Os fins justificam os meios”. Grande máxima comunista!  Nada! Não achava isso de jeito nenhum! Repito: Doce, ético... Assim como meus primos!  Acreditavam em um mundo melhor, com mais igualdade, sem discrepâncias sociais, imagem romântica que todos tínhamos do comunismo ou do que se pensava ser o comunismo.

    Doces comunistas românticos! Assim eram eles! Assim éramos nós!





segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FIGURAS FOLCLÓRICAS




FIGURAS FOLCLÓRICAS

   Em Itaperuna existiam algumas figuras folclóricas e salvo poucas exceções eu tinha medo de todas. Algumas eram reais e uma foi criada pelo meu imaginário.


                                                                                                             

   As reais eram o Lampião, um negro que me parecia bem idoso, e que corria atrás das crianças com um porrete que fazia de bengala, o Enguiça que ficava no ponto de ônibus da papelaria Ita Gráfica e que ameaçava os alunos pequenos que esperavam o ônibus ali. Tinha também o Amigo, de quem eu não tinha medo, e que gostava de conversar e falava que ia casar depois da colheita. A Porca Ruça era uma mulher muito branca, sarará e sujíssima. A Jacaré que não era muito assustadora, mas corria atrás de nós sempre que a chamávamos pelo apelido. A mais famosa sempre foi a Maria, que não punha medo em ninguém, mas que várias gerações conheceram. Maria foi dessas pessoas que para no tempo em matéria de idade. Sempre foi do jeito que conheci. Nunca mudou.

   Mas de todos, o que mais me apavorava, era a personagem que eu tinha criado na minha imaginação. Era a Cabeluda. Eu a imaginava um monstro horroroso, cheia de cabelos por todo o corpo e rosto.          
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   A história começou com um comentário de meu avô. Eu estava chorando, provavelmente fazendo uma bela manha, e olhava para a casa da vizinha, que tinha um buraco na parede, coberto por uma tábua, um pouco acima do chão. Meu avô falou: “-Mas que cabeluda!” (a manha). Parei de chorar no mesmo instante imaginando que naquele buraco houvesse esse monstro que imaginei no momento do comentário. Foi o bastante! Exploraram meu medo. Meu avô arranjou uma casa para o monstro! Era um alicerce de uma casa começada que ficava na subida do caminho que vinha do centro da cidade para nossa casa. Algumas pessoas às vezes ficavam morando ali em baixo, pois era um alicerce bem alto. Alguns anos depois abrigou até uma oficina de bicicleta. Eu não passava ali tranquila! Nunca via o monstro, mas com certeza ele morava ali. Fiquei muitos anos com medo da cabeluda! Não sei quando entendi que ela não existia de fato, mas sempre desconfiei daquele lugar escondido que durante muitos anos existiu  naquela subidinha!

                                                                  



domingo, 18 de agosto de 2013

AJANTARADO




AJANTARADO

   Quem sabe o que é ajantarado? Lá em casa tinha ajantarado aos domingos.
   Ajantarado é uma refeição feita mais tarde que o almoço e mais cedo que o jantar aos fins de semana, para diminuir o trabalho na cozinha.
   Aos domingos acordávamos mais tarde, algumas pessoas da casa iam à missa e sempre tínhamos para o almoço frango ensopado. Para nós, as crianças, tinha um significado importante. Domingo é dia de ajantarado, que pronunciávamos “jantarado”. Era dia de às vezes, muito às vezes, tomarmos refrigerantes. Uma Grapette. Cada garrafa pequena vinha com uma tampinha,que tínhamos que tirar com abridor de garrafas, e que deveríamos juntar para formar a tal frase de “Quem bebe Grapette, repete”, já que cada uma vinha com uma palavra. Ou um Crush, que era um refrigerante com sabor super artificial de laranja. Às vezes era só Q-Suco, que escolhíamos pela cor, já que os sabores não eram muito diferentes!
   Meu avô Ibrahim, que morava conosco, gostava de almoçar e jantar cedo, mas só durante a semana. Domingo ele respeitava o ajantarado e à noite não tinha jantar, só um lanche. Que farra não jantar e sim lanchar! Era a total quebra de rotina! Adorávamos! Era sagrado. Nada de jantar!!
   Não lembro o que lanchávamos. Acho que talvez pão com manteiga, ou um queijinho. Não ficou na minha memória. Mas os dias de almoço tarde, o frango ensopado e o fato de ouvirmos: hoje é ajantarado e a importância que era, estão vivas na minha memória. E até hoje guardamos o hábito do almoço de domingo ser mais tarde, mais elaborado, mais festivo! Continuamos com o nosso “jantarado”!

    



LORRAINE






LORRAINE

   Lô, minha pequena Lô, tão intensa, tão presente, e tão maravilhosa. Marca sua passagem com tantas palavras, tantos gestos e inúmeras opiniões, certas ou erradas, inacreditáveis às vezes, mas opiniões, expressas de forma positiva, de forma segura. Um meteoro de sentimentos, uma luz que explode por onde passa. Tantas coisas para falar, tantos pensamentos para expressar...
   Inacreditável que o tempo tenha passado tão rápido e aquela pequena criança, tão viva, tão sapeca, e tão pirracenta tenha se transformado em uma mulher, mas que ainda busca, procura, como lá atrás fazia, um sentido para tudo, uma felicidade que de  tão grande, não existe em tempo real.
   Lorraine á assim: meteoro, furacão, rapidez em pessoa. O coração? Enorme!! Tão grande que às vezes transborda de tanto sentimento, tanta vontade de agradar e de amar e então, muitas pessoas não entendem as atitudes, as opiniões e o descarrilamento de palavras. Coração que além de querer amar, quer ser amada, respeitada e acarinhada.
   A pequena Lô não deve querer ser diferente nos seus sentimentos, mas pode ser mais poderosa em relação à procura de brechas no seu caminho. Achar sua independência, trilhar uma estrada só sua. Sair da estrada alheia e buscar o mundo pela sua própria luz, que é tão grande!
   Linda a minha pequena Lô! Uma mistura de mulher independente com criança carente. Gosta tanto de gostar, que se perde nesse gostar, transborda no seu amor, na sua vontade de agradar.
   Vi nascer, vi crescer, mas será que ainda é a minha pequena Lô? Será que ainda consigo adivinhar suas alegrias e suas tristezas? Acho que sim. Seu grande coração não mudou, só cresceu mais ainda, acolhendo tantas pessoas que já passaram,  as que ainda estão na sua vida e que com certeza acolherá ainda muitas outras que chegarão!
   Prossiga minha Lorraine, prossiga na sua vida que ainda tem tantos caminhos a serem percorridos! Seja sempre verdadeira e que o meteoro que te acompanha não se apague jamais! Brinde a vida com essa energia e calor! Seja feliz, seja amada!





domingo, 2 de dezembro de 2012

O INHAMBU

                                                                         

  
 INHAMBU



                                                     O INHAMBU


          O Inhambu, conhecido ainda no Brasil pelos nomes populares: pé-roxo, bico-de-lacre, chitão ou chororó; e em inglês "Tataupa tinamou", é uma ave pequena, de ampla distribuição geográfica no Brasil (habitando o nordeste, centro-oeste, sudeste e sul), Peru, Bolívia, Paraguai e Argentina. Seu canto consiste numa sequência de notas rápidas e descendentes. 
        O meu avô tinha um “pio de inhambu” que era usado para atrair o pássaro. Fiquei com essa herança quando ele morreu. O pio é meu. 
        Outro dia, revendo alguns objetos guardados me deparei com ele. Pensei que, na minha lembrança, o meu avô nunca tinha usado o tal piado para pegar nenhum pássaro, mas tinha sim, usado mais de uma vez para nos mostrar, ao meu irmão e a mim, como o tal inhambu fazia.
        Saímos certa vez a cavalo lá no sítio que tínhamos e fomos “piar inhambu”. Ficamos escondidos atrás de uns matos e árvores para ver o pássaro. Meu avô usou o pio e ficamos esperando aparecer a avezinha. Eu, bem criança ainda, não tinha nenhuma noção como era o tal pássaro e fiquei lá esperando que ele aparecesse. E ele apareceu. Só que eu não consegui vê-lo. Meu avô me mostrava meu irmão também, mas cadê que eu via?
       -“Não estou vendo”, dizia.
       -“Olha ele lá!” meu avô apontava.
       -“Onde?”
       -“Lá”, meu irmão falava.
       O fato é que ficamos lá até o pássaro ir embora e eu, ainda assim, não consegui vê-lo.
      Falei para o meu avô que não tinha visto o tal do inhambu. Depois de muito tempo, quando já era maior, consegui entender porque não o tinha visto. Eu estava esperando um pássaro grande, enorme. Algo assim do tamanho de um galo, de um peru, sei lá.... Como aquela criança ia ver um pássaro tão miudinho? Ninguém tinha falado que era pequeno! E na minha imaginação (que não era pequena) ele era muito importante, um bichão que precisava de uma ferramenta específica para atraí-lo, aquele pio de madeira, que meu avô vivia soprando ou imitando com um assobio. Nunca mais esqueci esse som. Posso fechar os olhos e imaginar meu avô que escutarei o piado do inhambu. Não sei tão pouco se algum dia capturou um dos bichinhos os quais “piava”. Não sei o porquê daquela atração que ele tinha pela ave. Talvez fosse uma lembrança da época em que era tropeiro e andava por esses caminhos, livres de civilização, onde os pássaros podiam voar livremente, só temendo um “tropeiro piador” qualquer. 
    O fato é que até hoje nunca vi um Inhambu pessoalmente, somente através de fotos e talvez nunca o veja, mas com certeza ele existe nas minhas lembranças infantis e faz parte de mais uma, de tantas histórias que vivi com o meu avô Ibrahim .
    Saudades de um tempo tão livre, tão inocente, onde pássaros grandes ou pequenos, onças inexistentes e o outras fantasias faziam parte de uma infância sem complicações, regadas por grandes afetos e certezas absolutas em relação ao futuro que teríamos.


                                   
                                                  O Pio de "piar inhambu"





                                             Eu e meu irmão Elias Jorge




                                                    
                             Meu irmão, meu avô, meu pai e eu



Para conhecer ou lembrar do  canto do Inhambu click sobre o amarelo.

 







quarta-feira, 26 de setembro de 2012

SEBASTIÃO FEREIRA DINIZ OU SOMENTE TATÃO

                                                             TATÃO





SEBASTIÃO FEREIRA DINIZ OU SOMENTE TATÃO
   Lembrei-me do Tatão. Do nada me veio a lembrança de fatos ocorridos que ficaram na minha memória. Numa velocidade atroz, como flashes de trailer de filmes, vieram tantas lembranças!
   Tatão era Sebastião Ferreira Diniz, irmão do meu avô materno e que tinha uma deficiência física provavelmente originária de um parto difícil, uma paralisia cerebral que, o decorrer dos anos, foi decisivo para seu agravamento. Naquela época, não existiam os recursos de agora, então Tatão foi passando da bengala, para o carrinho de 3 rodas, para a cadeira de rodas e daí para a cama. Com o cognitivo preservado, era de uma grande inteligência, crítico e um grande chantagista. Gostava de brincar de adivinhações com as crianças, mas tinha preferência por uma especificamente, que fazia sempre: “ O que é o que é? Uma caixinha de bom parecer, mas não há carpinteiro que a possa fazer?” A resposta era amendoim (na casca obviamente). E  ria , ria muito das coisas “mal feitas”, daquelas que davam errado.  Era esperto para saber aproveitar dos que o achavam bobo. Em época de eleição fingia que vendia seu voto e então ganhava sapatos de um, terno de outro e assim ia vivendo. Nunca deixou de ter uma atividade. Em épocas em que não havia facilidade para benefícios sociais, trabalhava no seu carrinho: vendia café, engraxava sapatos...
   Convivi minha infância toda com ele. Primeiro no carrinho, na cadeira de rodas (da qual tinha um ciúme enorme), e depois, quando foi para a cama. Era então mais complicado para mim, mas nunca tive medo, raiva, vergonha ou qualquer sentimento adverso. À noite ele gritava muito, ou melhor, chamava muito para que alguém o  virasse  na cama, rogando a morte, mas com uma vontade de viver imensa. Quando sentia alguma coisa, quando pensava que ia morrer, punha a “boca no mundo” e pedia para não morrer e que se chamasse o médico.
   Existem alguns fatos folclóricos em relação a ele que vou tentar reproduzir:
   Em determinada ocasião, em que ainda se locomovia com alguma independência, disse que ia se matar. Pegou uma bala de revólver e disse que ia engolir e que aí ia dar cabo à vida. Meu avô, seu irmão, já o conhecendo bem, disse que ele fosse em frente. Pegou então a bala e disse para ele engolir e saiu. Dias depois, quando a sua camisa foi para ser lavada, achou-se a bala dentro do bolso.
 Um de seus inúmeros prazeres era colocar apelidos nas pessoas: meu tio Enéas era Geleia Mocotó de Égua, minha mãe era Fré, tio Luiz era Zé Velho e Brucutu, tia Therezinha , a Perereca, o tio Betão era Alemão, e à Dindinha ele chamava Costa D´ África. Gostava muito de usar expressões engraçadas. Quando uma pessoa sumia, ficava algum tempo sem aparecer, lá vinha ele com a teoria de que a pessoa já tinha morrido e era um tal de :
“-Ah! Fulano abotoou o paletó, ou Fulano atravessou o córrego, ou ainda Fulano botou pijama de madeira.”
   Sendo ele uma pessoa de um medo desmedido de almas de outro mundo, era vítima de brincadeiras e de sua própria imaginação. Em uma época em que moravam numa casa que tinha um quintal grande, com muitas árvores , num dia de muito calor, foi tomar a “fresca” na beira do rio que passava nos fundos do terreno. Já estava anoitecendo e o Tatão nada de aparecer. Meu avô Ibrahim foi a sua procura e como viu que ele já se encaminhava para casa, esperou por ele debaixo de uma árvore com a mão apoiada nela. Veio caminhando com a cabeça baixa e quando chegou perto de onde estava meu avô levantou a cabeça e deparou com aquela pessoa parada. Não sei o que poderia estar pensando, não sei o medo que trazia, mas o fato foi que quando o viu, só falou: ”-Bicho, diabo!” e saiu correndo com toda a sua dificuldade e só parou quando chegou dentro de casa. Provavelmente o medo era tanto que ele deve ter visto ali uma coisa imensa e que não deixou reconhecer seu próprio irmão.
       Pronto: foi o suficiente para divertir meu avô e virar mais um motivo de gozação!
  Apesar desse medo todo, gostava de assustar algumas pessoas. Certa vez, estava lá no seu quarto, quando entrou uma dessas crianças curiosas. Deve ter falado alguma coisa ou mesmo feito alguma careta. O fato é que a menina levou tanto susto que só conseguiu soltar aquele grito aterrorizado depois que já estava na calçada de casa!
 Nós nos divertimos muito quando começamos contar as suas histórias, mas até hoje ele consegue assustar uma pessoa ou outra com elas. O sogro de minha sobrinha, o Paulinho, depois de umas dessas conversas, não sei por que, ficou com tanto medo do Tatão que nem dormiu à noite, achando que a claridade dos faróis dos carros que passavam à noite eram almas do outro mundo!
      Depois de já acamado, quando chamava para virá-lo na cama, o eleito era o meu pai, que levantava à noite, sem reclamar e o atendia. Em uma determinada noite, depois de chamá-lo e de ser atendido, meu pai voltou para a cama e é chamado outra vez:
    “-Nagib, Nagib!
     -O que é, Tatão? Acabei de te virar!
     -É só para te dizer que seu pijama é muito bonito!”
      Esse era o Tatão! O meu tio Tatão!
                                             Paulinho com medo do Tatão

quarta-feira, 18 de julho de 2012

ERA UMA VEZ ...



Era um vez um ônibus. Uns homens armados e uma pessoa altamente protegida...
                                                                                                                                   
O ônibus era o Cidade do Aço  Rio X Volta Redonda, os homens eram cinco assaltantes armados e a pessoa era eu mesma! Inacreditável o que aconteceu aquela noite!

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Quando morava em Petrópolis, ia muito a na casa do meu irmão que reside em Volta Redonda. Como trabalhava o dia todo, para aproveitar o fim de semana , pegava o ônibus à noite para o Rio de janeiro e de lá o que ia para Volta Redonda. Isso era recorrente. E especialmente  naquele fim de semana, mês de Julho, eu estava indo para o aniversário do meu irmão.
Porém numa noite dessas o ônibus foi assaltado por 5 homens armados e aí começou uma aventura difícil de acreditar.
Os assaltantes entraram no ônibus na rodoviária como passageiros e em algum lugar na Avenida Brasil efetuaram o assalto. Vou tentar relatar, mas não sei se conseguirei  ser fiel aos fatos.
Eu estava sentada na poltrona 4(na frente, do lado da porta, no corredor) e havia um rapaz do meu lado, na poltrona 3(janela). Um dos assaltantes rendeu o motorista com uma arma, e os outros 4 também armados foram pegando tudo de todos. Na limpa foram pegando dinheiro, relógios, casacos, etc... . O que rendeu o motorista mandou que o rapaz que estava do meu lado saísse e fosse lá para traz, e com o revolver na altura da minha barriga mandou que eu chegasse para o canto e não olhasse para o seu rosto. Assim fiz ou tentei fazer, pois não consegui não olhar para a pessoa que estava na minha frente.  Olhar para onde ? Para cima? Para o lado? Mas as cortinas, por ordem deles, estavam fechadas. Só me restava olhar para frente e na frente estava aquela arma. Não sei porque, mas não tive medo e nem fiquei nervosa.
O homem então mandou que eu lhe entregasse meu dinheiro. Empurrei algumas notas maiores para o fundo da carteira e lhe dei o restante. Ele olhou aquela quantia e disse:
-Hum! Está pior do que eu!!
Guardou o dinheiro e o assalto continuou com os assaltantes “barbarizando” os passageiros. Não sei por que razão  pensaram que o rapaz que estava do meu lado era policial (o que não era correto), o colocaram deitado no corredor do ônibus e a impressão que tínhamos era que em qualquer momento eles atirariam no rapaz.
Bem, assalto realizado, eles decidiram descer em um local em Nova Iguaçu onde havia um carro esperando. Aí é que começou a acontecer  uma coisa “sui genere”.
O assaltante da frente me perguntou;
-Tem para o ônibus?
Eu disse:
_ Não. Dei todo o dinheiro!
Ele então tirou quase todo o dinheiro que eu tinha dado e me deu de volta.
-Toma aqui!
O outro assaltante veio de traz querendo puxar minha bolsa e eu a segurei  e disse que já tinha dado o dinheiro.
E o assaltante da frente;
-Vamos! Ela já me deu o dinheiro!
Tentaram puxar minha bagagem que estava no bagageiro, mas como tinha um pezinho na minha bolsa ela agarrou e não a levaram. Tentaram puxar a bolsa do rapaz que estava do meu lado, mas a alça agarrou no meu pé, então na pressa largaram-na para traz.
Enfim, não me levaram nada. Nem joias, já que eu estava com cordão e pulseira de ouro, relógio, casaco e principalmente o presente de aniversário do meu irmão.
Depois que desceram, o rapaz que estava do meu lado veio desesperado a procura da sua bagagem e eu calmamente falei que eles não tinham levado pois havia agarrado no meu pé.
Ele disse então que eu tinha salvado o dia dele, pois ali dentro estava o seu salário e o presente de 15 anos da sua filha . Perguntou então se estava tudo bem e se eles tinham feito alguma coisa e eu respondi que estava tudo bem e que  o assaltante tinha me devolvido a maior parte do dinheiro.
Fui alertada então,  que eu tinha corrido um grande risco, pois se eles tivessem que ter levado algum refém eu seria a pessoa, porque estava na frente. Aí sim, percebi o risco que eu tinha corrido. Mas ainda assim não fiquei nervosa, apenas um pouco assustada e tremendamente surpresa com que tinha acontecido. Todas as pessoas ficaram sem o seus pertences, inclusive casacos e eu com tudo.
Mas o assalto serviu pelo menos para uma coisa! Toda vez que eu chegava a Volta Redonda, telefonava para o meu irmão ir me pegar na rodoviária e ficava lá esperando, mas desta vez quando telefonei e falei que tinha sido assaltada, a ligação caiu e nunca ele chegou tão rápido para me pegar!


Não sei bem porque fui poupada deste jeito, mas acredito que talvez eu estivesse  muito mais protegida do que todas aquelas pessoas, ou então somente o assaltante foi com a minha cara não é????